Com um mês de quarentena no Brasil muita gente vem se perguntando o que muda, o que já mudou e o que mudará na economia do país. Já conseguimos sentir alguns efeitos dessas mudanças e a crise no país começou logo em seguida da pandemia chegar aqui, mas para entendermos melhor como superar essa crise na economia brasileira conversamos com a administradora Erika Carvalho, que trabalha na Planejadora Financeira Independente para nos dar uma visão mais ampla da situação. Confere o que ela disse:

1- Como o coronavírus afeta a economia mundial?

Em um primeiro momento, quando o problema começou na cidade chinesa de Wuhan, pareceu ser algo relacionado a condições locais e que poderia ser controlado pelas medidas de quarentena impostas pelo governo chinês. Mas, num contexto em que a China apresenta o segundo maior PIB (cerca de 16% da economia mundial), a situação causou alterações na cadeia de fornecimento de produtos chineses para o resto do mundo, bem como no consumo de commodities pelo país.

Porém o coronavírus mostrou-se mais perverso, com sua rápida transmissão fazendo com que surgissem infectados em todos os continentes, com um impacto ainda maior surgindo na Europa, particularmente na Itália. O país, inicialmente cético em relação aos perigos no novo vírus, foi mais afetado do que a China em número de infectados e mortos proporcionalmente a sua população, forçando a imposição de restrições bastante rigorosas quanto ao funcionamento do comércio e mobilidade dos cidadãos.

A partir de então não se tratava mais de um problema que afetava apenas o crescimento chinês, mas também outras grandes economias. Agora temos que os Estados Unidos, maior potência mundial, estão em situação semelhante, com um aumento mais expressivo no número de casos detectados de coronavírus, adotando as mesmas medidas restritivas.

Visto que o cenário tornou-se o de recessão global, frente a uma situação de redução drástica do comércio mundial por conta das cadeias produtivas interrompidas e restrições ao transporte entre fronteiras.

2- Os setores de manufatura e bens de consumo caíram enquanto as companhias de saúde cresceram quase 10%, como você enxerga esse impacto para as empresas e população?

Como em toda crise econômica, existe um impacto negativo para a maior parte dos setores enquanto alguns se beneficiam do cenário adverso.

No caso atual, pelo impacto direto do coronavírus sobre o setor de saúde, empresas ligadas à prevenção (materiais de limpeza e higiene pessoal), diagnóstico (laboratórios) e tratamento (planos de saúde, medicamentos, equipamentos ventilação) tiverem um salto repentino na demanda. Já a população tem sofrido para encontrar itens básicos como álcool de limpeza e álcool gel. Faltam máscaras e equipamentos de proteção até para quem mais precisa como profissionais de saúde e pacientes em tratamentos que reduzem a imunidade.

Já setores como o automobilístico e eletrodomésticos entraram em compasso de espera, pois não são itens prioritários no momento, talvez provavelmente até pela incerteza de renda das famílias. É interessante notar que o varejo básico (alimentos e bebidas), que costuma ser um dos mais resilientes em momentos de crise, já que são itens que as pessoas não podem eliminar do seu orçamento, tem tido reações opostas. 

Os supermercados puderam manter suas atividades e se pode notar reposição de produtos nas prateleiras ao longo do dia pela maior demanda. Já pequenos mercados e restaurantes que servem refeições para pessoas que trabalham nas adjacências, perderam boa parte de seu público repentinamente e se viram obrigados a atender apenas por entrega, algo que não aconteceria numa crise nos modelos anteriores.

3- Qual é o impacto da falta de importação e exportação para o Brasil? Onde o brasileiro que está em casa conseguirá sentir esse efeito?

No rol das principais exportações brasileiras estão as commodities minerais, como petróleo, minério de ferro, e agrícolas, como soja, milho e carne. Menos exportações significam menos receita para o Brasil e, com isso, menor impacto positivo no crescimento (PIB).

Para nós, no dia a dia, temos as consequências macro de um país que cresce menos (expectativas reduzidas de geração de empregos e aumento de renda), mas também podemos observar mudanças em nível micro.

A carne é um bom exemplo disso. Nos últimos meses de 2019 observou-se um forte aumento da carne bovina por conta da forte demanda externa, principalmente da China que teve impactos da peste africano sobre seus rebanhos suínos.

Já nas importações, tem grande peso produtos manufaturados e componentes para veículos e produtos eletrônicos, cuja escassez poderia levar ao aumento de preços e até falta no mercado se não há substitutos produzidos internamente.

Também preocupam as importações de medicamentos (matérias primas e produtos prontos), cujas restrições teriam impacto não só nos preços mas também no cotidiano de tratamento dos pacientes infectados.

4- O que pequenas empresas precisam fazer nesse momento para conseguir passar pela crise gerada pelo Covid-19 sem grande impactos?

O grande perigo para as pequenas nesse período de restrição aos negócios é o “estrangulamento” do fluxo de caixa, em que as receitas caem drasticamente enquanto as despesas não caem proporcionalmente. No lado do faturamento, é preciso ser flexível para buscar novos canais de venda (redes sociais, aplicativos de entrega, sites de promoção) e pagamento (parcelamento, descontos, aquisição para uso futuro). 

Na parte de despesas, reduzir tudo que não for essencial, trabalhando com menos estoque. Tentar negociar extensão de prazos para pagamento de fornecedores de maior porte e tributos. O salário dos funcionários é o ponto mais delicado, havendo a possibilidade de acessar linhas de financiamento com essa finalidade que estão sendo disponibilizadas com condições diferenciadas e eventualmente negociar com o staff reduções temporárias ou parcelamento dos pagamentos.

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5- Devemos investir nesse momento? Se sim, onde é preferível?

Por conta das taxas de juros estarem em um nível historicamente muito baixo, pessoas até então bastante conservadoras migraram seus investimentos para alternativas mais arriscadas como ações e fundos imobiliários. E sentiram bastante o impacto das quedas nesses mercados que já se iniciaram em fevereiro.

Então, mesmo que possam existir oportunidades para aumentar a exposição de risco, se você tem um perfil mais conservador e não lida bem com grandes oscilações nos rendimentos. Não faz sentido aumentar seu risco, pois com o cenário ainda muito incerto é bem provável que as turbulências continuem por mais tempo. Para esse público, alternativas como tesouro direto, por exemplo, tem oferecido taxas atrativas para aplicações com vencimentos entre 3 a 6 anos com remuneração atrelada a inflação e também taxas prefixadas.

Quanto a disponibilidade de recursos, é importante nesse momento também frisar que vale a pena reforçar a sua reserva de emergência.

Nesse caso, mais importante do que rentabilidade é o dinheiro estar disponível de forma rápida, como no Tesouro Selic, CDBs com liquidez e até mesmo a poupança.

6- Com o dólar em alta e empresas cancelando voos para dentro do Brasil e também para o exterior, muitas companhias aéreas e agências de viagens começam com promoções, é o momento de arriscar uma compra grande?

Fazer qualquer compra relacionada a viagens nesse momento seria uma grande aposta. Tem que ver se os descontos oferecidos valem mesmo a pena caso você precise cancelar. E se as condições oferecidas pelas empresas aéreas e agências de turismo permitem reembolso total ou parcial dos valores caso as restrições de mobilidade se restrinjam por períodos mais longos.

7- Qual será o principal efeito desse crise? 

Acredito que será o impacto negativo sobre o nível de confiança das famílias e empresas. As crises em geral tem esse efeito sobre a confiança e dessa vez os desdobramentos sobre renda e emprego estão chegando muito mais rápido a economia real.

Então decisões de investimento pelas empresas ficarão em stand-by por falta de recursos usados para cobrir os prejuízos da crise e também falta de confiança. A mesma lógica vale para o consumo das famílias que tendem a frear decisões de aquisição de imóveis, veículos e bens de consumo duráveis de maior valor.

8- Com tantas pessoas perdendo o emprego ou tendo que tirar licenças não remuneradas, ou até mesmo salários sendo cortados pela metade, qual a principal dica para os brasileiros se programarem com o dinheiro?

O momento é de cautela, principalmente para quem já está sentindo os impactos de diminuição na renda. Isto é reduzir o que não for essencial para encontrar um novo equilíbrio no orçamento. Nada de gastos parcelados que comprometam sua renda por meses a fio.

Em segundo lugar, se tiver recursos aplicados, é hora de lançar mão deles para não se endividar em modalidades como cheque especial e cartão de crédito, que aumentam rápido num efeito “bola de neve”.

9- Tem alguma previsão da crise passar? E quando passar como devemos agir para não sermos pegos de surpresa novamente?

Ao contrário das crises econômicas anteriores, que se iniciaram no mercado financeiro e acabaram contaminando a economia real depois de um tempo pelo impacto no comercio, redução de renda e aumento do desemprego, a atual crise começou afetando diretamente a economia real com as restrições impostas pela necessidade de quarentena.

No segundo semestre, imagino que já estaremos de volta ao “normal” quanto ao pleno funcionamento das indústrias, comércio e serviços, mas teremos que lidar com sequelas de grande magnitude como falência de empresas que não conseguirem se financiar durante o período de maior restrição e aumento do desemprego (que já estava em patamares altos antes da crise).

A administradora especializada em economia, Erika Carvalho, deixou um recado rápido de como passar pela crise:

Enfim, a lição que fica para empresas e pessoas físicas é a da importância se construir reservas durante os períodos de estabilidade para servirem como suporte na crise. O ano de 2020 vai ser de minimização de perdas…recuperação e enquanto a retomada do crescimento devem ficar para 2021!

Às vezes é preciso dar um passo para trás de acordo com o que foi falado dessa maneira é provável que consigamos passar pela crise com menos impactos mesmo que o cenário seja desanimador. Se você precisa de ajuda, conte conosco, por fim, nos chame!